Escuela Huber de Astrología

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Selección de ARTÍCULOS de la Escuela Huber de Astrologia. Num 26.

As Filosofias Orientais e a Psicossíntese

Autora: Regina Martins (Brasil) Fecha: año 2004

Regina es professora de letras Neo-Latinas formada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Sedes Sapientiae” de São Paulo. Professora aposentada da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo. Ha estudiado el Curso Básico do Método Huber, ministrado por Sônia Maria da Lima. Curso de Formação de Terapeutas em Psicossíntese, ministrado por Andrée Samuel, do Centro de Psicossíntese de São Paulo. Curso para o Diploma de Assessoramento Astrológico do API da Espanha con el certificado de la escuela espanhola. Cursos de Medicina Chinesa, Taoísmo e Tai Chi ministrados por Mestre Liu Pai Lin e sua discípula Jerusha Chang. Colaborou durante seis anos com o jornal “O Peregrino”. Colaboradora mensal do jornal “O Aprendiz” de Ribeirão Preto, com artigos sobre Astrologia.

13 — Logo, por meio deste entendimento, a Busca Suprema deve ser intentada; quando se alcança a Meta, eles (os aspirantes) já não erram. Eu, como o Representante de Brahm, sendo o Refúgio Final e o Supremo Senhor, conheço este Purusha Primordial como parte de Mim Mesmo de onde o remoto Cosmo foi manifestado.

14 — Aqueles aspirantes que diferenciam o Princípio de Vida da Matéria, que superam a egoística perspectiva, que são versados na Ciência do Princípio de Vida, executando ações sem apego a seus resultados, liberados das dualidades que geram prazer ou dor, e, portanto, sendo conhecedores do Atma como Causa-de-udo, alcançam aquela imutável Morada.

Bhagavad Gita — Cap. VII — Kaivalya Dharma Gita (01)

I – Introdução
O mundo ocidental bem há pouco tempo voltou-se para si mesmo e descobriu os mistérios da Alma humana. Até Freud, no começo do século, pode-se dizer que a Psicologia engatinhava, ficando restrita ao tratamento de alguns casos mais curiosos, com métodos muitas vezes também muito curiosos, de pouca eficácia para a cura dos pacientes que se viam às voltas com o experimentalismo de seus médicos. Os hospitais psiquiátricos estavam cheios de seres a quem propriamente não se poderia chamar de doentes: divergentes sociais, crianças abandonadas, velhos improdutivos, mulheres que aborreciam os maridos, filhas ou filhos inconvenientes a seus pais, moças cujo comportamento não se enquadrava nas normas da sociedade, esquecidos e abandonados à própria sorte, os quais serviam de objeto de estudo aos cientistas da época. Só no começo de século Freud passa a se interessar mais profundamente pela Alma humana e a Psicologia atinge verdadeiramente o status de ciência.

No entanto, no Oriente, esta observação da Alma, através da observação de si mesmo, já era feita desde tempos imemoriais. É uma particularidade dos povos orientais um interesse pelo seu mundo interno, que não se pode explicar somente por causas políticas ou econômicas, ou como querem alguns autores, por sucessivas invasões de povos de raças diferentes. Não é pertinente ao trabalho a explicação deste fato, mas conserve-se o registro.

Chineses, tibetanos, japoneses, hindus, só para citar os mais conhecidos, legaram à Humanidade conhecimentos muito profundos sobre o funcionamento da nossa psique, acompanhados de técnicas que levariam o indivíduo por meio desses mesmos conhecimentos, a alcançar a paz e alegria de viver. Essas técnicas incluíam o desenvolvimento não só da mente, pela observação constante dos processos psíquicos, mas também do corpo físico com a execução de exercícios corporais (hatha-yoga, taoísmo). A mente, como intelecto que analisa os fatos, comprova-os em laboratório ou experimenta-os na realidade concreta, memoriza-os para transmiti-los como verdades incontestes, não é valorizada com a mesma intensidade como no ocidente. Pelo contrário, a mente é vista como a principal responsável pela criação do nosso mundo interno, e portanto, passível de ser observada com cuidado, dominada e, só então canalizada para se alcançar o objetivo supremo: a união com o mundo transcendental. Aí sim, o intelecto entra como suporte para a aquisição de conhecimentos.

Aqui reside a diferença fundamental entre essas duas mentalidades. O Ocidente faz uma distinção feroz entre o que é ciência e o que é religião. Para a nossa mentalidade pragmática e técnica, as duas não podem se misturar. Uma coisa é o estudo da psique, a compreensão da sua constituição e da sua manifestação através dos instintos, das pulsões, dos sonhos, dos atos falhos, fantasias, e outra, muito diferente, é a ligação do homem com o divino.

É impressionante notar isso nos meios acadêmicos, na nossa realidade brasileira em que as idéias novas chegam sempre muito atrasadas. Pelo que podemos notar, há dois grupos mais abrangentes: aqueles que não têm nenhum sentido de espiritualidade vêem o ser humano com uma dimensão estreita, uma máquina que funciona de uma determinada maneira um tanto quanto padronizada, em que determinados sonhos significam tais coisas e que determinados comportamentos inevitavelmente são causados por tais e tais complexos infantis. O outro grupo, daqueles que buscam um sentido de vida numa religião institucionalizada, aferram-se a dogmas e dividem, em dois blocos perfeitamente distintos, as suas crenças de um lado, e de outro, a melhor e relativamente recente compreensão da psique humana conquistada pela Psicologia. Não conseguem fazer a ponte entre a religião e a ciência da Alma, considerando-se que ambas tratam da mesma coisa: o mundo interno dos seres humanos e sua atuação no meio ambiente. Felizmente, nesses mesmos meios, aumenta o número daqueles outros que já consideram que a saúde mental, a verdadeira alegria e a auto-realização passam por um profundo comprometimento com a dimensão espiritual, mesmo porque esta dimensão também faz parte da constituição do psiquismo humano.

É interessante que a cisão entre a percepção do funcionamento da vida psicológica do homem e a espiritualidade não constitui um problema para os orientais. Pelo contrário, estão de tal modo ligadas que para a nossa mentalidade média, comum, as metafísicas orientais, como é o caso do Yoga, parecem constituir ou uma religião estranha, bizarra, cheia de deuses, ou um panteísmo como no Taoísmo ou ainda a adoração de um outro deus-homem, como no Budismo.

Uma dedicação à verdadeira compreensão dessas filosofias nos faz ver que todas pretendem reestabelecer a ligação do ser humano com sua origem espiritual, cósmica e despertar nele a consciência dessa origem. Nas palavras do Mestre Liu: “Não somos seres materiais vivendo uma experiência espiritual, mas seres espirituais vivendo uma experiência no mundo da matéria”. Então, todo esforço do praticante do Taoísmo consiste em retirar as camadas de imperfeições humanas que obscurecem o brilho do Espírito, trabalhando o despertar de atitudes positivas como a disciplina e o vigor físico para a obtenção da serenidade, qualidade imprescindível para unir Homem, Céu e Terra, realizando o Tai-Chi.

No entanto, já há alguns anos, o Ocidente vem reconhecendo nos seres humanos a existência e a importância dessa dimensão espiritual para a resolução de conflitos e de distúrbios psicológicos. Na introdução do livro “Emergência Espiritual - Crise e Transformação Espiritual”, organizado por Stanislav e Christina Grof, há a seguinte constatação:

“Ele (Stanislav) também se deu conta de que muitos estados considerados pela psiquiatria manifestações de doenças mentais de origem desconhecida são, na verdade, expressões de um processo de autocura da psique e do corpo”. (02)
Nesse mesmo livro, os organizadores relatam que, “a partir dos anos 60, o número de pessoas que viveram estados místicos ou paranormais cresceu de maneira consistente”. (03) Desse modo, fazia-se necessário considerar de outra maneira os estados incomuns de consciência, pois as abordagens tradicionais tendiam patologizar os estados místicos, desqualificando todas as coisas que tivessem a mínima relação com o misticismo como resquícios da Idade das Trevas.

Desde o começo do século, alguns psiquiatras notaram as falhas e limitações dos ensinamentos de Freud, o qual se concentrava nos instintos básicos do homem, negligenciando e concebendo erroneamente a dimensão espiritual. Jung, Maslow e Assagioli, para citar os mais importantes, acentuam o papel da espiritualidade na vida humana. Cria-se, então, a psicologia transpessoal que vincula a ciência com as tradições espirituais.

No prefácio de seu livro “O Ato da Vontade”, Roberto Assagioli escreve:

“Este volume é também um mapa preliminar do ato de querer, do ponto de vista dos mais novos desenvolvimentos da Psicologia – isto é, na psicologia existencial, humanística e transpessoal – embora tenha raízes em várias contribuições mais antigas”. (04)
De fato, ao tomarmos contato com a Psicossíntese, chama-nos a atenção a perfeita concordância desse método terapêutico com a metafísica hindu e as filosofias derivadas do Budismo, ou mesmo das práticas do Taoísmo. As semelhanças principais, vistas de uma maneira não muito aprofundada, são o auto-exame, através de técnicas apropriadas (“Conhece a ti mesmo”), o controle das diversas partes da personalidade (o reconhecimento das emoções através da educação da mente), a descoberta de um Centro Unificador (o Atman, a Morada do Espírito), e a reconstrução dessa personalidade em torno do novo Centro (a insistência em que todas as ações tenham como ponto de partida o Centro, não a personalidade, como por exemplo, na arte do ykebana, da pintura ou da música, ou nas artes guerreiras do arqueiro zen). Tanto na Psicossíntese como nas tradições antigas, a Vontade ocupa um papel primordial. Sem vontade firme e decidida para sustentar a decisão de se submeter aos rigores do treinamento, o praticante não alcança a união de sua alma individual com a Alma do Universo, finalidade última e aspiração consciente ou inconsciente de todo ser humano.

A intenção deste trabalho é aproximar alguns dos ensinamentos antigos e tradicionais, contidos na metafísica Yogue, no Zen-budismo, nas práticas taoístas que se aproximam da teoria e da prática da Psicossíntese, sem ter, no entanto, a mínima preocupação de esgotar o assunto, devido não só à complexidade do tema escolhido, como do conhecimento apenas superficial que tenho de cada um desses tópicos.

II — A Psicossíntese como expressão individual de uma lei cósmica de Síntese
Pensa-se com AMOR
Que todas as coisas e seres
Surgiram de dentro do Espírito Universal
Cuja Vida a tudo e a todos compenetra
Em ordem constante e em Vida Eterna.
Pensa-se com AMOR
Que todas as coisas e seres
Tanto os seres inferiores como os superiores
Participam da mesma e única Vida,
Formando nos espaços infinitos
Um só Corpo Cósmico.
Bhávana — Conceito da Unidade Cósmica (05)

Um dos pontos fundamentais dos ensinamentos das antigas tradições metafísicas, filosóficas ou religiosas orientais é não considerar o homem como um ser separado da Natureza, mas pertencente a ela e sujeito às mesmas leis cósmicas que regem o Universo. Assim, o Universo como um todo é manifestação de um Ser Supremo, tem sua existência dentro desse Ser e nada existe fora d’Ele. Nem mesmo o que nossas mentes limitadas concebem como mal está fora deste Ser Supremo.

O principal fundamento da doutrina do Suddha Dharma Mandalam, uma organização esotérica da Índia, reside no conceito do Bhávana, que explica a formação e constituição do Universo. Melhor seria deixarmos um estudioso desta doutrina dar a sua definição do Bhávana. Nas palavras do Dr. José Ruguê Ribeiro Jr., membro do Suddha Dharma Mandalam:

“Bhávana é a constatação de uma realidade. A compreensão de que o Universo é uma substância única chamada Brahm: todos os seres são este mesmo Brahm, não criados por Brahm, mas o próprio Brahm; os seres, os mundos, o plano denso e os sutis, os deuses, os demônios. Nós não estudamos Brahm criando o Universo, mas sendo o Universo, sendo este a expressão manifestada de Brahm”. (06)
Então, o Bhávana é a compreensão da unidade cósmica. Não existe nada isolado, fazemos todos parte de uma rede de relações que nos entrelaça uns aos outros, até os limites mais extremos do Cosmos, simplesmente porque somos todos partes individualizadas de Brahm. Lentamente, num processo natural de evolução, a Humanidade foi compreendendo esta verdade e hoje acha-se em condições de se perceber como “um elemento ou célula de um grupo humano”. Este grupo une-se a outros, formando associações que se estendem a todo país, aos outros países, acabando por incluir toda a família humana.

Vejamos agora o que diz Assagioli a respeito da Psicossíntese:

“A psicossíntese também pode ser considerada a expressão individual de um princípio mais amplo, de uma lei geral de síntese interindividual e cósmica. De fato, o indivíduo isolado não existe; toda e qualquer pessoa tem relações íntimas com outros indivíduos, o que os torna todos interdependentes. Além disso, todos e cada um deles estão incluídos e são parte integrante da Realidade espiritual supra-individual”. (07)
Essa crença na existência de um Ser que a tudo compenetra e na unidade de todos os seres nesse mesmo Ser é que orienta a prática dessas religiões orientais. A inclusão dessa dimensão espiritual é fundamental para a compreensão da vida psíquica do homem, não só para se compreender a dimensão total de sua natureza, mas também para que se possa favorecer o desenvolvimento de todas as suas potencialidades. A Psicossíntese, como as tradições religiosas mais antigas, procura facilitar o processo natural do despertar da espiritualidade que leva o homem a novas dimensões nunca antes percorridas e a um funcionamento de acordo com novas percepções interiores.

III — A crença na evolução do Homem
“À escala estritamente anatômica, os humanos formam, tão somente, mais uma família na ordem dos primatas...Mas, o Homem é o próprio mundo que, entrando, à força, num domínio físico até então fechado, parte, dentro de si, para uma etapa nova.” (08)
Teilhard de Chardin

As filosofias e religiões do Oriente pertencem a uma tradição que aceita a reencarnação como um fato tão indiscutível como estarmos hoje encarnados num corpo físico. A idéia da transmutação das Almas de um corpo para outro também era corrente entre os gregos, os egípcios e outros povos da Antigüidade.

Implícita a essa crença, havia uma outra: a da evolução do Cosmos e, com ela, a da Vida na terra. É surpreendente como muitos séculos mais tarde, o padre católico e paleontólogo Teilhard de Chardin, contrariando os preceitos da Igreja, também tenha chegado, não através da fé, mas da ciência e das pesquisas, à mesma conclusão: o Cosmos evolui em direção ao aparecimento da dimensão psíquica e da consciência.

Então, de acordo com essa concepção, a matéria passa por diversos estágios de consciência: de simples átomos a agregados de matéria, aos minerais, à vida vegetal, aos animais inferiores que vão lentamente evoluindo até chegar ao fenômeno humano, no qual se instala o primado do psiquismo e do desenvolvimento da consciência. O planeta Terra é visto como o cenário onde se desenrola um drama cósmico: o lento mas inexorável processo no qual a matéria bruta vai se individualizando, tornando-se consciente de si mesma e de sua origem divina.

Todavia, não estamos todos no mesmo grau de desenvolvimento. Há seres humanos próximos da animalidade, enquanto outros já cumpriram suas etapas de evolução de Alma e estão prontos para alcançar a liberação e unir-se à Fonte. Este processo de caminhada de uma consciência do estágio de átomo até ao de ser humano implica no pressuposto de uma evolução também em nível individual. As tradições religiosas costumam chamar de “O Caminho” a longa peregrinação que as Almas que já adquiriram a individuação fazem para voltar à Casa do Pai. É essa também a tradução corrente da palavra TAO, o Caminho, ainda que ela implique em significados mais profundos.

Não poderia deixar de ser essa a posição de Assagioli. Sem entrar, evidentemente,em considerações de ordem religiosa, ele assinala, entre as semelhanças que a Psicossíntese tem com outras correntes de psicoterapia, “o conceito ou, melhor, o fato de que cada indivíduo está em constante desenvolvimento, está crescendo, realizando sucessivamente muitas potencialidades latentes”.

IV — O respeito pelas imperfeições inerentes à natureza humana
“Para ser grande, sê inteiro:
nada Teu exagera ou exclui”.
Fernando Pessoa (10)

Um dos conceitos mais consoladores, tanto das doutrinas orientais como da Psicossíntese é o respeito pelas fragilidades e imperfeições do ser humano. Nada deve ser excluído da personalidade humana como “mau”, ou exageradamente valorizado como “bom”, como ocorre com certos aspectos da personalidade muito cultivados hoje em dia como o espírito competitivo e o individualismo.

Isto decorre da crença profunda de que somos originários de um só Espírito e que tendemos todos a buscar a Unidade Absoluta. Não há nada que esteja fora de Brahm e então nossas arraigadas noções de “bem e de mal” são apenas fruto da nossa ignorância e limitação de visão, pois tudo é relativo. Incapazes de perceber o Todo e os propósitos da Divindade, consideramos nossos fracassos e erros uma catástrofe que nos causa profundo sofrimento e ansiedade. Somos incapazes também de perceber os erros como desafios necessários para o crescimento de nossa personalidade e evolução de nossa Alma.

Todavia, estamos apenas crescendo, como já foi dito, caminhando em direção à Unidade. Tudo o que dentro de nós gera divisão, confusão, que julgamos mau, negativo, asúrico, ou demoníaco, tem sua origem em Brahm, e portanto tem uma finalidade específica no momento em que acontece. Citando Telma Jábali Barreto, Gnana Dhatha da Suddha Dharma Mandalam de Ribeirão Preto:

“Tudo aquilo que nos parece mau, em algum lugar no passado (mais ou menos remoto) teve sua importância no lugar e no tempo devidos e, se hoje nos incomoda, fazendo-nos sentir pouco à vontade, é porque chegou o momento de transmutar aquela energia para alguma coisa que nos pareça mais positiva e que possa colocar-nos mais uma vez em harmonia”. (11)
Tudo na nossa vida tem um propósito, ainda que nos momentos de desespero possamos não compreender esta realidade:


Sarvam TatKalvidam Brahm.
Tudo é verdadeiramente Brahm.
Sarvam Brahm Swabhavayam.
Tudo é da natureza de Brahm.
Sarvam Avasyakam.
Tudo é necessário.
Estes são os três Grandes Aforismos, a base na qual devem apoiar-se aqueles que, através do estudo, do conhecimento (Gnana), da Vontade (Bhakti), da ação (Karma) buscam tornar-se Adhikaris, ou seja, discípulos qualificados. Por compreender esses preceitos é que insistentemente se aconselhaaos seguidores da doutrina Yogue que não condenem seus impulsos inferiores, nem se prendam a eles, mas que os aceitem como fazendo parte de nossa natureza humana. Muito menos deve-se criticar os outros que não atingiram o mesmo grau de consciência, porque uma vez no passado foi essa mesma a nossa condição e etapa de evolução. Todos nós passamos pelas mesmas fases de crescimento, então, nada há a se criticar nos outros, nem podemos querer que compreendam aquilo que ainda não lhes está ao alcance, por não estarem ainda despertos para a luz da consciência. Citando a mesma autora anterior:

“Não ficamos brigando com as nossas imperfeições, mas buscamos sentir que somos parte, e como tal, compenetrados pela Vida Eterna da Indivisível Felicidade de onde surgimos. ” (12)
Na 1a. Epístola aos Coríntios, encontramos essa mesma idéia de que cada um age de acordo com a sua etapa na escala da evolução e de que o crescimento é possível. O apóstolo São Paulo diz a esse respeito:

“Quando eu era menino, falava como menino, julgava como menino, discorria como menino. Mas depois que eu cheguei a ser homem feito, dei de mão às coisas que eram de menino.”
Vejamos o que diz Assagioli:

“Um outro ponto é que não visamos a uma completa e exaustiva exploração do inconsciente. Não achamos necessário para os objetivos terapêuticos e psicossintéticos esquadrinhar, de modo quase formalista, todos os recantos , ainda os mais minúsculos, do inconsciente e varrê-los até ficarem limpos do último grão de - chamemos-lhe assim - sujeira ou impureza.” (13)
Assim, a terapia é feita por etapas. Trata-se o paciente da situação imediata que ele apresenta. Se alguma coisa ficou no inconsciente que perturba a vida, mais cedo ou mais tarde vai aparecer como resistência ou sintoma. Começa-se, então, um outro período de análise dessas defesas e sintomas: “quando o inconsciente perturba, ocupamo-nos dele; se estiver quieto e silencioso, não fazemos contra ele uma ofensiva sistemática.” (14)

Um yogue diria que não se consegue acordar quem está dormindo e não quer (ou não pode, pelo seu grau de evolução) abrir os olhos. Ninguém pode à força ser levado a ver o conteúdo do seu inconsciente para o qual não está preparado. O crescimento deve ser lento, gradual, constante e principalmente seguro. Não é outra a posição da Psicossíntese. O terapeuta, como os Mestres e Gurus, devem desenvolver em si qualidades de acolhimento, compreensão e principalmente, uma profunda compaixão pelo sofrimento humano.

V — A constituição da vida psíquica do homem — O Centro
“O reino de Deus não virá com mostras algumas exteriores; nem dirão: Ei-lo aqui, ou ei-lo acolá. Porque eis aqui está o Reino de Deus dentro de vós.”
Lucas: 17, 20 e 21

Pela citação acima, vemos que a idéia de que possuímos um Centro Espiritual, simplesmente por causa de nossa filiação divina, não deveria ser estranha à mentalidade ocidental. Curiosamente, na Bíblia da qual foram tirados os versículos, encontra-se a seguinte explicação: “o Reino de Deus estava presente na coletividade, mas não entre os fariseus porque eram inimigos desse Reino e, portanto, não mereciam a graça de possuí-lo”. É um comentário no mínimo infeliz, porque se esquece de que Jesus estava respondendo a uma pergunta dos fariseus, falando com eles e, consequentemente, o dentro de vós só poderia referir-se a seus interlocutores, os próprios fariseus.

Esta interpretação esdrúxula mostra claramente a dificuldade que teve o Ocidente, e ainda têm os meios religiosos ortodoxos, em aceitar a presença do elemento divino dentro do próprio homem. A divindade foi colocada fora, num Céu distante e difícil de alcançar. Aos homens, na sua miserabilidade cheia de culpa, só restaria esperar que, de maneira totalmente mágica e gloriosa Deus restabelecesse, num tempo sempre muito longe, um reino onde não haveria mais choro e ranger de dentes. A responsabilidade do ser humano em ajudar a criar esse reino, dentro ou fora de si mesmo, não era cogitada.

Ao contrário do Ocidente, nunca foi estranho à Yoga, ao Taoísmo e ao Budismo a existência de um Centro em torno do qual se organizaria a personalidade. Talvez fosse melhor que se começasse por descrever como a filosofia Yogue concebe a constituição da vida psíquica do homem:

A Alma individual (Jiva) – constitui nossa individualidade eterna, nunca teve princípio, nem terá fim. Projeta em cada encarnação uma parte de si mesma, a personalidade, servindo-se das tendências inatas. Manifesta-se na realidade concreta por meio dessa mesma personalidade, da qual assimila as experiências, crescendo em conhecimento, desenvolvendo e tornando consciente suas potencialidades. É o que verdadeiramente em nós evolui.
A personalidade – constitui a manifestação no mundo da Alma individual (Jiva). É o conjunto de nossos hábitos, gostos, crenças, educação. É o que conhecemos como nossa identidade pessoal, aquilo que chamamos de “eu”. Tem a duração de uma encarnação e sua finalidade é acumular experiências e desenvolver atributos ainda latentes.
Atman – a Centelha Divina ou Consciência de Brahm, eterna, imutável, perfeita. Pertence a todos e é o que nos faz compreender que as diferentes manifestações cósmicas são emanações deste Eu Único.
É em torno do Atman que o aspirante deve organizar sua vida. Na Bhagavad Gita são muitos os versos que demonstram a necessidade de se concentrar em um ponto único - o Atman. Escolhemos um, bastante significativo:

“Com a mente absorta em Mim, sê tu Meu devoto; dedicando a Mim todos os teus atos, e rendendo teu ser a mim, busca refúgio em Mim; deste modo, disciplinando-te, tu Me alcançarás.”
Nos comentários à Gita inseridos numa nova tradução, Swami Subrahmanyananda enumera os trabalhos do Ego, durante sua evolução. É importante salientar que a palavra Ego, que conservamos para não alterar o texto, tem aqui o mesmo valor de Alma Individual ou Jiva:

Educação de si mesmo.
Educação de outros.
Como resultado dos dois anteriores, segue o sacrifício de centrar-se em Si Mesmo.(os negritos são do texto original)
Substituição da força motivadora do serviço em benefício do mundo pelo Centro assim sacrificado.
Rendição do Ego Individual à sua Fonte, Brahman, o Qual conduz à Liberação.
Aceitação voluntária da limitação na forma de um corpo humano, ou das vestimentas mais sutis de Nirmana-Kaya, Sambhoga-kaya, Dharma-Kaya e semelhantes, pelo Espírito liberado, no intuito de ajudar Egos menos desenvolvidos, em direção à sua liberação. (15)
(O tópico quarto talvez merecesse uma reflexão, pois o entendimento não se fez rápido. Muito provavelmentequeira dizer que o serviço no mundo exige que não se trabalhe mais com a personalidade, mas com o Centro, que evidentemente é muito mais capaz de não cometer enganos.)

Como pudemos ver, há uma clara referência ao nosso Eu Interno, que Assagioli chama de Eu Superior, no diagrama do ovo. E é possível que a personalidade, ou o campo da consciência entre em contato com esse Centro, desde que para isso se empenhe, educando-se e prestando serviço ao mundo. Neste trabalho de educação de si mesmo, a Vontade tem papel preponderante.

VI — A função da vontade
Como o homem, junto com todo Cosmos, tende à evolução, dia virá em que nossa Alma nos empurrará para dimensões mais amplas de consciência. Sentimo-nos divididos entre uma parte nossa que deseja a antiga situação de imersão na massa, na coletividade, com toda a sensação de segurança que o grupo transmite e uma outra que percebe que há algo além da realidade concreta, da vida diária atrás da subsistência, que somos mais que “besta sadia, cadáver adiado que procria”. (16) Os sintomas que anunciam esse despertar manifestam-se como ansiedade, angústia e uma desconfortável sensação de “falta-alguma-coisa-que-não-sei-bem-o-que-é”.

O papel da espiritualidade na vida humana e os problemas emocionais que precedem, acompanham e seguem uma abertura espiritual estão descritos por Assagioli no capítulo: Auto-realização e distúrbios psicológicos. Este é um período de muita conturbação emocional, de alternância entre luz e sombra, de incompreensão por parte dos outros. O indivíduo continua a ser pressionado a desempenhar seus diversos papéis sociais, quando precisaria de paz e tranqüilidade para atravessar esta fase.

Além disso, o indivíduo torna-se extremamente sensível e julga a si mesmo com redobrada severidade. Ao mesmo tempo, muitas propensões e impulsos que estavam adormecidos no inconsciente, devido ao afluxo da energia superior emergem para a consciência, e conseguir o devido controle deles tornam-se um desafio. Esta fase demanda uma extrema coragem, paciência, disciplina e sobretudo serenidade. Segundo Assagioli:

“A solução está, outrossim, numa integração harmoniosa de todos os impulsos na personalidade total, primeiro através da subordinação e coordenação apropriadas, e, depois pela transformação e sublimação da parcela excessiva ou não usada de energia.” (17)
Para esse trabalho sobre si mesmo, o exercício da Vontade é fundamental.

No tratado Yoga-Sutra, o mais antigo documento sistemático sobre o Yoga de que temos notícia, Patanjali descreve as oito etapas do Yoga. A primeira etapa, Yama, versa principalmente sobre as relações harmoniosas do homem com a sociedade humana e o mundo dos seres vivos. A segunda, Nyama, visa à organização da vida interior, pessoal. Impor limites ao comportamento exterior não é suficiente. É preciso reestruturar a personalidade profunda por meio de cinco observâncias, que devem ser praticadas regularmente, dia após dias. São elas:

a purificação do corpo pela limpeza tanto externa, como dos órgãos internos
contentamento com tudo o que possui, não desejando mais nada
esforço sobre si: ninguém pode engajar-se na via do Yoga sem a determinação de esforçar-se ao máximo por mobilizar toda sua energia e atenção para atingir o objetivo visado. Essa vontade de esforçar-se, que é a verdadeira mola propulsora da ascese, implica por sua vez paciência e perseverança. Deve-se estar pronto para suportar todas as dificuldades encontradas, aceitar o esforço sobre si e até o sacrifício que implica a exigência de permanecer imóvel numa mesma posição, de guardar silêncio e de aplicar-se a todas as disciplinas necessárias. (18)
o estudo
a consagração a Deus
Citando mais uma vez Telma J. Barreto:

“Se quiséssemos sintetizar em apenas uma frase no que consiste a Religião Suddha Dharma diríamos que toda ela está baseada no “domínio ou controle” da vontade.” (19)
Não se poderia supor que tal determinação poderia prescindir do exercício de uma poderosa vontade.

Por compreender-lhe a importância, na introdução do livro “Psicossíntese”, Assagioli assinala entre as diferenças da psicossíntese e os outros métodos não existenciais de psicoterapia, o lugar central ocupado pela vontade como função essencial do eu e origem de todas as escolhas. Faz uma análise cuidadosa de suas várias fases e descreve várias técnicas para estimular, desenvolver, fortalecer e dirigir corretamente a vontade. Um de seus livros, “O Ato da Vontade”, é dedicado exclusivamente ao estudo desta função, que ocupa a posição central entre as outras funções psicológicas, porque só ela é capaz de dirigir e fazer a interação de umafunção com as outras.

Por outro lado, a consciência de que fazemos parte de um Todo maior nos leva a diferenciar aquilo que é Indiviso, a Fonte Motriz do que é manifestado, da multiplicidade e portanto sujeito à evolução. Começamos a compreender que, de certa forma, vivemos fora dessa Unidade e que precisamos retornar a sentir em nós a experiência da integridade psíquica. Primeiramente notamos que em nossos comportamentos sempre se repetem padrões, tendências, hábitos, projeçõesque precisam ser compreendidos e transmutados. Não é uma tarefa fácil de ser realizada e torna-se necessário fortalecermos ainda mais a nossa vontade. Para conhecermos melhor nossas debilidades e obtermos esse fortalecimento da vontade, contamos com o auxílio da meditação.

Mestre Liu, muito jocosamente, dizia que o Céu não é para preguiçosos. Mas o ensinamento mais precioso que nos deixou foi o seu treinamento constante para ter o coração leve, isto é, a busca contínua da serenidade. Só através dos estados meditativos, conseguidos no Taoísmo com os movimentos lentos do Tai-chi ou do “sentar na calma”, poderemos acalmar o coração e atingir o Vazio, ou seja, a experiência do contato com o Self.

VII —- A função da meditação
Todas as doutrinas do Oriente dão um destaque primordial à meditação. Sem ela é impossível chegarmos ao conhecimento de nós mesmos, do funcionamento de nossa mente, da verdadeira natureza de nossos pensamentos e de como eles recriam o mundo, tanto objetivo como subjetivo.

Ao Ocidente também não é uma prática estranha. Fez parte das tradições religiosas de todos os tempos, sendo praticada por todos aqueles que alcançaram um desenvolvimento espiritual muito superior à média dos seus contemporâneos. Passando pelos xamãs americanos e australianos, sacerdotes druidas, hierofantes egípcios, adeptos dos mistérios eleusinos, chegando até aos santos católicos, só para citar a diversidade de cultura, há uma longa tradição meditativa,que era, no entanto, reservada apenas a uns poucos seres especiais.

Na Idade Média o povo ainda participava de alguns rituais que poderiam levar a um centramento e ao reconhecimento de que havia em cada um partes desintegradas da personalidade que precisavam ser integradas, transmutadas e depois canalizadas para uma expressão mais criativa. A existência, no chão da Catedral de Chartres, de um labirinto que era percorrido de joelhos pelos penitentes a partir da periferia até o centro, apontapara a consciência dessa necessidade. Nos dias de hoje, acha-se coberto de cadeiras, indicando de uma maneira muito concreta como o Ocidente se rendeu ao pragmatismo econômico da vida moderna e se esqueceu de seus valores mais significativos. A religião tornou-se, pelo menos no Brasil, um aparato ensurdecedor de instrumentos musicais, salvas de palmas para Deus e seus Santos e cantorias vazias de sentido, que em nada contribuem para o desenvolvimento da espiritualidade. O homem fica na periferia de sua personalidade, de seu ego, não entrando nunca em contato com as camadas mais profundas de seu inconsciente. Não percebe o funcionamento de sua mente no trabalho constante de criar um diálogo interior, formulando questões que são respondidas a partir de experiências passadas, projeções, fantasias e auto-explicações. Assim construímos nosso mundo!

N”O Ato da Vontade”, Assagioli dedica todo Apêndice 2 à meditação, já que a inclui no processo terapêutico. Como não poderia deixar de ser, apóia-se nas práticas meditativas que procuram desviar a nossa atenção do mundo externo para o mundo interno, próprias das religiões orientais. Assim, falando sobre a preparação para uma meditação eficaz, salienta a necessidade de iniciá-la primeiramente com o relaxamento, primeiro do corpo físico, através da respiração pausada e atenta, depois do emocional e finalmente buscar o recolhimento mental. A mesma seqüência usam os yogues, buscando, através da respiração, o relaxamento de Annamayakosha, o físico, Pranamayakosha, o emocional e Manomayakosha, o mental. Vejamos o que diz Assagioli sobre a função da meditação:

“O mais importante (...) para quem busca a psicossíntese pessoal é a meditação reflexiva sobre o próprio self. Por meio dela é possível distinguir entre autoconsciência pura ou percepção do self e os elementos ou partes psicológicas de nossa personalidade em diferentes níveis.(...) Esta percepção, esta possibilidade de observar a própria personalidade “do alto” e “de uma distância interior”, não deve ser confundida com egocentrismo ou preocupação consigo mesmo.(...) Ela visa a compreender, a interpretar e a avaliaraquilo que descobrimos em nós.” (20)
Estas palavras nos remetem imediatamente a considerar a existência de algo, dentro de nós, que nos avalia, que nos observa: o eu observador.

VIII — O eu observador

Quem está aí? - pergunta Deus.
Sou eu.
Vá embora! - diz Deus...
Mais tarde...
Quem está aí? - pergunta Deus.
Vós.
Entra, responde Deus. (21)
No livro“Sempre Zen”, de onde foi tirado o texto acima, a autora Charlotte Joko Beck descreve os resultados das práticas meditativas do zazen, com uma surpreendente afinidade com as concepções do eu observador ou centro de nossa consciência e das subpersonalidades, encontradas na Psicossíntese. Vejamos:

“Há, no entanto, um outro aspecto de nós mesmos que aos poucos começamos a conhecer, quando praticamos o zazen: o eu observador. (...) Todas as partes que descrevemos e chamamos nós, são limitadas. E também lineares; vêm e vão dentro do tempo. Porém, o eu observador não pode ser enquadrado na mesma categoria, independente do quanto nos esforcemos nesse sentido. O que observa não pode ser encontrado nem descrito. Se procurarmos por essa dimensão, não há nada. Uma vez que não há nada a saber a seu respeito, quase podemos dizer que é uma outra dimensão.” (22)
Tudo o que percebemos a nosso respeito quando meditamos, pertence à esfera da personalidade. Podemos, então,aprender a enxergar nossos padrões , nossas atitudes e o mundo de faz-de-conta de nossa mente.

“Podemos compreender que estamos apenas disputando jogos e que estamos longe do genuíno conhecimento de nós mesmos.” (23)
É necessário que ultrapassemos essa etapa. Para além dessa percepção não há nada a se manter. Descobrimos “certo tipo de atmosfera ou ambiente interior que não tem forma, nem formato, nem característica específica, nem estrutura” (24)

Estamos em contato com o self. Entramos no Vazio!

IX — A identificação e desidentificação
Na vida do dia-a-dia, normalmente o que ocorre é que nos identificamos com nossos estados mentais, geralmente provocados por intensos sentimentos das mais diferentes categorias e, muitas vezes, mesmo opostos entre si: aguda sensação de inferioridade misturada com projetos de vingança, depressão e excitação, amor e ódio, passividade e atividade febril, dor e alegria. Não podemos nem ao menos confiar em nossos sentidos que freqüentemente nos enganam, fazendo-nos ver, sentir e ouvir muito mais de acordo com nossas inclinações do que com a realidade. Vivemos num mundo totalmente subjetivo e juramos que tudo é real e verdadeiro. Estes estados emocionais nos levam para muito longe de nós mesmos e da verdadeira natureza da realidade. Não é para admirar que nos sintamos numa total confusão, muitas vezes angustiados e insatisfeitos conosco e como a vida é organizada.

Sair desse estado mental de confusão depende apenas de reorientarmos a nossa atenção não tanto para o mundo externo, mas dirigi-la para o nosso interior. Aí poderemos compreender, interpretar e avaliar o que percebemos a nosso respeito. Esta observação não se deve restringir aos momentos de meditação, mas deve ser feita a todo instante.

“(...) Quando praticamos, devemos observar como trabalhamos, como fazemos amor, como comemos numa festa, como nos portamos numa nova situação quando só há desconhecidos. (...) Qualquer aspecto de nossa pessoa que não seja observado permanecerá indistinto, confuso, misterioso. Será semi-independente de nós, como se pudesse acontecer por si mesmo e, então, ficaremos presos em suas malhas e arrastados pela confusão.” (25)
Segundo a autora, pela atenção plena ao momento presente, chega-se à conclusão de que os nossos pensamentos, vinculados às sensações de nosso corpo, ou à nossa mente ou àsnossas emoções, são falsos pensamentos e portanto “está correto empurrá-los fora do caminho”. Ela diz que é correto cuidar do corpo, da mente e das emoções. O problema começa quando nos identificamos com eles. Quando nos desidentificamos deles, podemos ficar mais receptivos a percepções dos outros, podemos abrir o coração à Vida.

“A prática é ver cada vez através da ficção dessas identificações exclusivas, que é a enfermidade que dita nossas ações. Quando fazemos zazen, temos uma preciosa oportunidade para ficar de frente para nós mesmos, para enxergar a natureza do falso pensamento que cria a ilusão de um eu separado”. (26)
Na Psicossíntese, depois que descobrimos os elementos inconscientes que fazem parte de nossa personalidade, devemos aprender a controlá-los e tomar posse deles, através da desidentificação de nossos estados mentais. Assagioli tem uma frase de muita força expressiva: “Neste princípio reside o segredo de nossa escravização ou de nossa liberdade” . (27)

Assim, toda vez que nos identificamos com um defeito, uma fraqueza, um medo ficamos limitados e paralisados. Se não temos consciência, somos dominados por ele. Ao contrário, se o eu está atento, podemos examinar esses impulsos, averiguar sua origem, prever seus efeitos destrutivos sobre nós e muitas vezes perceber o quanto são infundados e não passam de criação da nossa mente.

“Somos dominados por tudo aquilo com que nosso eu se identificou. Podemos dominar e controlar tudo aquilo de que nos desidentificamos.” (28)
Passamos depois para a segunda etapa do processo: enfrentar as causas do nosso sofrimento que jazem no inconsciente e cortar-lhes as raízes, por meio da “desintegração das imagens ou complexos perniciosos e do controle e utilização das energias assim liberadas”. (29).

Só a partir daí é que podemos utilizar a energia liberada para fins mais construtivos, atividades criativas, reorganizando nossa personalidade em torno de um centro. Estaremos então contribuindo para a nossa psicossíntese e com uma maior oportunidade de nos aproximarmos do “Princípio Unificador e controlador de nossas vidas”. (30)

X — A Psicossíntese interindividual — o primado do Amor
“O Amor, como o Pensamento, encontra-se, sempre em pleno crescimento na Noosfera... Tende, portanto, na sua forma completamente hominizada, a ocupar uma função muito mais larga que o simples apelo à reprodução... Vai alcançar, em nossa opinião, o conjunto esperado de faculdades e consciências novas, no misterioso porvir”.
Teilhard de Chardin (31)

O objetivo de toda e qualquer religião é levar os seres humanos a se religarem com a Fonte, origem do Amor Supremo e Incondicional. No entanto, há necessidade de se cumpriremcertas exigências. A primeira delas é que a nossa personalidade deixe o lugar de comando de nossas vidas e ceda o seu lugar ao Espírito, que passará a dirigir nossas ações no mundo. Éum trabalho difícil porque o ego não suporta ser despojado daquilo que o faz sentir-se vivo: suas defesas criadas laboriosamente a partir das experiências no mundo. Derrubá-las seria deixá-lo momentaneamente sem apoio, sem saber o que fazer. No entanto, é extremamente necessário que isso aconteça. Então, é o processo de observação constante de nossos sentimentos e sensações que nos permitirá aprender a nos aceitar, a apreciar-nos em toda a inteireza de nossa humanidade, incluindo os aspectos que consideramos “bons” e aqueles que consideramos “maus” e assim tambémestar abertos para os outros. Equilibrando nossa mente e nosso corpo é possível atingirmos a paz interior e a alegria verdadeira, que se expressa no Amor.

Tal é também o objetivo da Psicossíntese. Se estivermos internamente integrados, seremos capazes de integrar os outros em nossa vida, primeiro na família, depois em grupos maiores, até atingir a Humanidade inteira, numa expressão viva de nossa própria humanidade. Tornar-nos cada vez mais Homens, eis a tarefa!

XI — Conclusão
Como podemos ver, há uma identidade muito grande entre a Psicossíntese e as tradições religiosas, tanto do Ocidente quanto do Oriente. O ser humano é um só em todos os tempos e lugares e considerá-lo na sua totalidade física, emocional, mental e espiritual leva a coincidências nas doutrinas religiosas, na metafísica e na ciência.

Ao contrário de outras abordagens psicológicas, a Psicossíntese leva em grande consideração os elementos e funções provenientes do superconsciente, como os valores estéticos, éticos e religiosos, as intuições, os estados de consciência mística, já que eles são reais ede grande poder transformador do mundo interno e externo.

No entanto, Assagioli reitera que a Psicossíntese não pretende ocupar o lugar e o papel das religiões, nem da filosofia, nem da metafísica. Como homem de ciência, toma esses fatos como observáveis, passíveis de experimento através do uso de métodos compatíveis à natureza desses fenômenos. Muito menos pretende explicar o que chama de o “Grande Mistério”, pois essa é a função específica das religiões.

O objetivo da Psicossíntese é a reconstrução ou recriação consciente e planejada da personalidade em torno de um Centro, sem excluir nenhum dos aspectos que constituem a natureza do ser humano. A partir da cura das sérias doenças da Alma que estão afetando o indivíduo nos tempos de hoje, propõe a reconstrução de “uma nova civilização caracterizada por uma harmoniosa integração e cooperação, impregnada pelo espírito de síntese”. (32)

Citaçöes
(01) Bhagavad Gita - Cap. VII - Kaivalya Dharma Gita - 159
(02) Emergência Espiritual - pág. 14
(03) idem - pág. 13
(04) O Ato da Vontade - pág. 1
(05) O Bhávana - Publicação da Suddha Dharma Mandalam, ano de 1995
(06) Publicação do encontro do Suddha Dharma Mandalam, ano de 1995.
(07) Psicossíntese - Manual de princípios e técnicas - pág. 44
(08) L’Aparition de L’Homme - citado por Nöel Martin-Deslias em “Teilhard de Chardin, aventureiro do espírito” - pág. 130
(09) Psicossíntese - Manual de princípios e técnicas - pág. 18
(10) Obra Poética - pág.289
(11) Publicação do encontro do Suddha Dharma Mandalam de 1995
(12) idem
(13) Psicossíntese - Manual de princípios e técnica - pág.113
(14) idem, ibidem
(15) Srimad Bhagavad Gita - pág. 46
(16) Obra Poética - pág. 76
(17) Psicossíntese - Manual de princípios e técnicas - pág. 64
(18) Os aforismos de Patanjali - antigas folhas soltas xerografadas, sem menção do livro de onde foram tiradas.
(19) Publicação do encontro do Suddha Dharma Mandalam do ano de 1995
(20) O Ato da Vontade - pág.179
(21) Sempre Zen - pág. 155
(22) idem – pág. 156
(23) Gestos de Equilíbrio - pág. 91
(24) idem - pág. 100
(25) Sempre Zen - pág. 156
(26) idem
(27) Psicossíntese - pág. 36
(28) idem, ibidem
(29) idem - pág. 37
(30) idem, ibidem
(31) L’Énergie Humaine, citado por Nöel Martin-Deslias em “Teilhard de Chardin, aventureiro do espírito”, pág. 131
(32) Psicossíntese - pág. 23
Bibliografía
Assagioli, Dr. Roberto - O Ato da vontade - Editora Cultrix , São Paulo, 1993.
Assagioli, Dr. Roberto - Psicossíntese - Editora Cultrix, São Paulo, 1992-97.
Beck, Charlotte Joko - Sempre Zen - Editora Saraiva, 1991
Grof, Stanislav e Christina - Emergência Espiritual - Cultrix, São Paulo, 1995-97.
Martin-Deslias, Noël - Teilhard de Chardin, aventureiro do espírito - Livraria Duas Cidades, Lisboa - 1965
Pessoa, Fernando - Obra Poética - Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro, 1965
Publicação dos temas do Encontro de Ashrams da Suddha Dharma Mandalam de agosto de 1995.
Publicação dos temas do Encontro de Ashrams da Suddha Dharma Mandalam de agosto de 2000.
Srimad Bhagavad Gita - Produção independente do Suddha Dharma Mandalam - traduzido do inglês por Haydée Touriño Wilmer.
S.Szasz, Thomas - A Fabricação da Loucura - um estudo comparativo entre a Inquisição e o movimento de Saúde Mental - Zahar Editores, Rio de Janeiro 1976.
Tarthang Tulku - Gestos de Equilíbrio - Guia para a percepção, a Autocura e a Meditação - Editora pensamento, São Paulu,1990-04.
Zimmer, Heinrich - Filosofias da Índia - Editora Palas Athena, São Paulo, 1986. A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen.

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